A importância das feiras livres como espaço de representação cultural
Mais do que espaços de comércio, as feiras livres também são uma manifestação da cultura, possuindo um caráter muito diversificado, principalmente por conta do público que as frequenta. Circulam pessoas de todos os tipos, sejam feirantes, compradores ou simples caminhantes. Também conta com a presença de comércios variados, ambulantes, prestação de serviços, e de outros itens que visam atender diversas demandas.
A feira livre também é um dos poucos espaços ainda existentes em nossa sociedade contemporânea, nos aglomerados urbanos, onde ainda podemos manter um contato direto com a comunidade ou da dita experiência de sociabilidade (MASCARENHAS&DOLZANI, 2008; MINNAERT, 2002).
Existem diversas questões subjacentes quanto à manutenção das feiras livres como: garantir a assiduidade de frequentadores, proporcionar bons serviços, manter o ambiente seguro e bem organizado, preocupações quanto a boa convivência entre as pessoas que frequentam a localidade, bem como manter aspectos subjetivos que agreguem valor a experiência da feira para além do aspecto material de se oferecer mercadorias as pessoas.
Ao nos atentarmos a todos os aspectos que englobam as feiras livres, sobretudo aos aspectos referentes à questão de sociabilidade, entendemos como um dos principais fatores que podemos indicar em sua existência é sua capacidade de se transformar, adequar-se aos novos tempos, e mesmo assim preservar a tradição popular, mantendo ainda viva a importância social de seus aspectos como uma manifestação das diferentes culturas e suas diversidades.
E foi fundamentalmente pensando nesses aspectos que se deu a escolha pela visita a feira Kantuta, localizada no Bairro do Canindé, na Cidade de São Paulo. Não por acaso o nome da própria feira deriva da flor boliviana “Cantua buxifolia”, muito comum no altiplano boliviano, e cujas cores remetem à bandeira boliviana. Isso apenas ressalta o importante papel que a feira cumpre como ponto de representação cultural dos povos andinos, sobretudo dos bolivianos, na Grande São Paulo.
Figura 1 – Mural, Liberdade sem Fronteiras
A feira Kantuta
Conforme os registros históricos do IPHAN (2009), a feira iniciou-se por volta de 1993 na praça Padre Bento, nas proximidades da Igreja Santo Antônio do Pari. Mudando posteriormente para a região atual (em 2002), onde os bolivianos passaram a se encontrar.
No próprio documento do IPHAN é ressaltada a importância da feira como forma de reconhecimento das “relações de sociabilidade entre brasileiros e latino-americanos que ocorrem na Feira, seja por meio do comércio, dos serviços, das trocas culturais” (IPHAN, 2009).
Além disso, o espaço da feira atua diretamente como símbolo de representatividade e resistência da cultura andina na Cidade de São Paulo. É um importante local para encontro dos bolivianos, peruanos, equatorianos e outros sul-americanos descendentes andinos.
Neste local, todos esses povos encontram um espaço de acolhimento e preservação de aspectos culturais. O que pode ser exemplificado pela forte presença das barracas de culinária típica, de artesanatos andinos, pelas barracas que prestam serviços sociais e pelos eventos que ocorrem frequentemente como forma de integração dos frequentadores da Feira. O que também é ressaltado pelo no relatório elaborado pelo IPHAN (2009):
[…] é composta por cerca de 54 barracas, que se dividem em: comidas típicas bolivianas, artesanato, cereais, doces e bolos, dvd’s e cd’s, livros e revistas, sucos, brinquedos, pães, barbeiros. […] No fundo da praça, há um pequeno palco, onde ocorrem discursos e falas relacionadas a temas de interesse da Associação e algumas apresentações culturais, como danças típicas. O público é composto de maioria latinoamericana (bolivianos, peruanos, paraguaios) e observa-se o crescimento da visitação de brasileiros à feira, principalmente nas barracas de comidas (IPHAN, 2009: 2).
Figura 2 – Praça Kantuta
Informações Culturais
Entende-se como povos andinos aqueles que se estabeleceram majoritariamente na região das Cordilheiras do Andes, localizada na costa oeste da América do Sul, passando pelos territórios de sete países, a saber: Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Argentina e Venezuela.
As representações culturais presentes na Feira Kantuta, são majoritariamente expressões da cultura boliviana, dessa forma será referente as informações culturais deste país que vamos nos aprofundar nesta discussão. A Bolívia é um país majoritariamente indígena, com formação em mais de 50 culturas diferentes, destacando-se dentre elas:
KOLHAS: pertenciam aos países de nome Kolhasuyu, onde se ensinavam o esoterismo e as ciências ocultas.
AYMARAS: criadores do antigo sistema político da escrita e do idioma.
KETCHUAS: descendentes da etnia Aymara e criadores do Império Inca.
KALHAWAYAS: médicos, xamãs e herveiros/fitoterapeutas.
INCAS: resultado da sucessão das civilizações anteriores, maior império da América pré-colonização.
Em mais de quinze mil anos de civilização os povos indígenas da América do Sul distribuíram-se pelo território ocupando aldeias e vilas, criando nações, reinos e impérios. Na atualidade os povos Quechua e Aymara constituem as últimas nações indígenas com população de mais 5 milhões de pessoas.
Essa forte miscigenação é também verificada no aspecto de maior importância cultural para um povo, sua língua nativa. Os idiomas Quechua e Aymara seriam os originários e o Espanhol teria sido incorporado posteriormente pelos colonizadores.
Entre as contribuições desses povos para evolução e progresso da humanidade podemos citar as práticas agrícolas, domesticação das espécies e utilização de plantas para uso medicinal. Alimentos presentes nas dietas europeias ou dos homens brancos, foram originalmente cultivados por esses povos, tais como a batata, o tomate e o chocolate. Além disso, também há registros da utilização de Curare e Coca como elementos anestésicos e outras substâncias que deram origens a antibióticos e analgésicos dos dias atuais.
As expressões artísticas são carregadas de simbolismos místicos, há uma ligação muito forte com a representação dos elementos e da “força” originária da terra, bem como com a transcendências das representações temporais. O artesanato têxtil, bastante desenvolvido, é representado por cores bastante vivas e com estampados variados que abusam de formas geométricas. Outra técnica bem desenvolvida por estes povos é o trabalho em metais, dado a abundância deste item em suas terras, eram desenvolvidas esculturas para representação de rituais e construídos utensílios em geral. Por fim, a música andina de acordo com a tradição dos povos, tem suas raízes nos sons que o vento emite ao cruzar as montanhas dos Andes, e é representada sobretudo por instrumentos de sopro tais como a Flauta-de-pã.
Temos então um misto de contribuições históricas e científicas para tentar exemplificar o que de fato representa a Feira Kantuta e a cultura dos povos que nela se encontram, porém para enriquecer ainda mais a experiência seguiremos com as descrições.
Figuras 3 e 4 – Expressões artísticas
Referências
MASCARENHAS, G., DOLZANI, M. C. S., “Feira livre: territorialidade popular e cultura na metrópole contemporânea”. Revista Ateliê Geográfico, Goiânia-GO v. 2, n 2, agos/2008 p.72-87.
IPHAN, Inventário Nacional de Referências Culturais do Bom Retiro, Ficha de Identificação Lugares, Feira Kantuta, São Paulo, 2009.
INFORMAÇÕES CULTURAIS Bolívia, São Paulo: Feira Kantuta, 2019.